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Para muita gente o cenário de quadrinhos em Sergipe é inexistente. A maior parte das pessoas não conhece produção local alguma, para além de trabalhos que passem da ilustração. Em pesquisa realizada pelo Google Forms, entre março e junho de 2021, das 198 pessoas que responderam, apenas 37% considerava que existia uma produção dentro da linguagem de quadrinhos no estado. Este não é um fator isolado do estado, temos poucos leitores no país inteiro, leitores de livros mesmo!

A arte local geralmente é pouco conhecida do brasileiro comum, temos um sentimento de inferioridade na arte brasileira e grande admiração pela arte estrangeira, algo que é delicado até de falar. Fatores socioculturais levam a produção artística a ter pouco desenvolvimento em termos financeiros e por isso pouca visibilidade quando falamos de profissão. O artista no Brasil é, muitas vezes, alguém que produz depois do expediente de trabalho, nos fins de semana e horas livres. Uma arte que muitas vezes enfrenta grandes dificuldades de se profissionalizar e atingir maiores patamares técnicos e é duramente criticada, com comparativos à indústria internacional (a exemplo de grandes editoras para falar dos quadrinhos e de Hollywood em relação aos filmes).

Acompanho há mais de uma década o cenário de quadrinhos (sim ele existe!). No saudoso HQ Festival me deparei com a produção amadora e profissional do estado, de vários guris que desenhavam seus personagens favoritos e histórias inspiradas nos objetos culturais que consumiam (desenhos animados, HQs de super-heróis etc) até alguns profissionais, sobretudo da área de ilustração, que vez ou outra trabalhavam com quadrinhos, raramente alguém apenas focado em quadrinhos. Os grupos de fanzineiros sentavam nas mesas do evento e deixavam suas histórias em quadrinhos xerocadas para venda, o que girava em torno de 2 ou 4 reais na época.

Naquele período ( o último HQ festival ocorreu em 2011) a internet não era tão rápida quanto hoje e poucos pensavam em publicações online. Porém com o tempo as tendências mudaram, vários ilustradores e roteiristas passaram a produzir para o mundo virtual e as redes sociais mudaram bastante o ambiente de produção. Diversos artistas, que eu vi lançando fanzines naquele período de 2011, migraram totalmente para o ambiente da ilustração e internet. Entre os principais aspectos que devemos considerar em relação as mudanças ocorridas no panorama de quadrinhos do estado, além da velocidade de internet é o acesso aos computadores e celulares. Este dado modificou a cena dos quadrinhos não apenas de Sergipe, mas mundialmente. Podemos observar que grandes editoras aderiram a formatos digitais dos quadrinhos.

No Brasil surgiu ao menos uma plataforma de streaming de quadrinhos, que possibilita acessibilidade considerável aos produtos quadrinísticos, assim como possibilidade de divulgação para novos autores. Porém algo que não podemos deixar de comentar a respeito destes “novos ventos” digitais para os quadrinhos que surgiram com a velocidade e acessibilidade de internet é, possivelmente, uma consequência desta mesma, que impactou fortemente o universo das HQs, o que podemos chamar de “migração” de leitores para mídias digitais e redes sociais. Este fator aliado a outros eventos como questões econômicas e encarecimento de matérias-primas acarretou uma crise das livrarias no país, vivida nos últimos anos. Enquanto por um lado parece-nos que houve muito mais produção em relação à linguagem artística (quadrinhos), algo muito positivo para a cultura local e nacional, por outro podemos observar uma possível migração de novos leitores para o mar infinito da internet, ao menos é a sensação que temos.

Mas será que há uma solução para esse abismo a que a linguagem se encaminha? Há sim! Temos que mudar algumas mentalidades sobre o cenário de quadrinhos, de leitores a criadores. Há de se criar um senso de localidade e apoio mútuo com os produtores (que custa seguir de volta? Compartilhar as postagens?). Aqueles que desejam criar histórias que mereçam ser lidas devem se empenhar ao máximo nessa tarefa, estudar a linguagem e levar a sério o trabalho, procurar contar suas histórias, seus ideais, sua cultura. É necessário formar novos leitores, mostrar os quadrinhos às crianças e adolescentes, reduzir o tempo em frente às telas. Fazer conhecer a arte local, difundir, divulgar, compartilhar. Somos desconhecidos em nosso próprio meio, não estamos nas bancas, nas livrarias dos shoppings e na conversa dos intelectuais. Somos anônimos, mas somos muitos e estamos por toda parte! Continuar é o caminho.

Sigamos fazendo o que nos faz ser! Acreditemos no amanhã, mas sem esperar que ele chegue fácil, lutemos!

Avante Guerreiros da tribo de Serigy!

Por Arlan Clécio

Publicado originalmente em "Contos Serigy: uma antologia sergipana em quadrinhos" em 2021.

 

Referência: SANTANA, M. et al. Contos Serigy: uma antologia sergipana em quadrinhos. Editora Serigy Comics. Aracaju-SE. 2021